Archive for the ‘07. Poetas/Poesias’ Category

Poeta - Daniel Bernardes - Psiu… - Clique aqui
Psiu… Silêncio.
Não quero lhe ouvir falar de suas dores,
De seus amores, de seus ardores.
Silêncio que a noite chegou.
Recolha-se a seu canto porque não quero que você cante seus cantos, lamentos, nem resgate e relembre suas alegrias e prantos.
Psiu-cale-a-boca-agora que é chegada a hora dos meus cães latirem alto que é chegada a hora de meus homens abrandarem sua cólera irriquieta de assalto.
Que é hora de seu sangue no asfalto.
Cale-se agora deixe que eu desça meu manto de aço sobre seu pobre espinhaço de sambista e que você fique só no seu canto com seu sorriso forçado de palhaço.
Porque os tempos são outros as dores são outras os cortes são outros.
Psssiu…
Porque é lei.
(Daniel Bernardes)

Confira a poesia “Soldados de Chumbro”, de Serginho Poeta, uma das primeiras poesias apresentadas no Samba da Vela, em 2000/2001, ainda quando a roda de samba era no bar Ziriguidum, abaixo a letra e o áudio (gravado ao vivo no dia 06/08/07):

Soldados de Chumbo - Serginho Poeta - Clique aqui

Soldados de Chumbo
(Serginho Poeta)

“Quando apagam a luz
Da última cela do meu pavilhão
Um clarão vem iluminar a minha janela
É a lua
Não sei o que seria de mim se não fosse ela
O sentinela caminha de um lado para outro
Acende um cigarro…
Um carro passa por trás da muralha
Não posso vê-lo, apenas ouvi-lo
Não posso tocá-lo, mas posso senti-lo
É engraçado
Não fosse pelo andar desengonçado
Pela deselegância
Diria que o homem fardado
Se parece com alguns soldados de chumbo
Que ganhei na minha infância
Minha mãe trabalhava
Por quanto tempo durasse o dia
E acaso, não fosse o bastante
Seu esforço tinha a noite como companhia
Às vezes, me levava para o emprego
E eu ficava confinado à área de serviço
Talvez porque a patroa não gostasse de negros
Circulando pelos cômodos do seu luxuoso cortiço
Quando acordava de bom humor
Danava-se a falar do moleque sem cor
Que queria que fosse engenheiro
Sei que minha mãe sonhava pra mim
Um futuro semelhante
Mas quando olhava pro neguinho
Com ar de maloqueiro
Arriava o semblante e sofria
Como quem descobre uma infinita distância
Entre desejo e realidade
Certo dia
A madame me deu de esmola
A Guarda Real Britânica
Em formato de miniaturas
Criaturas sem pernas ou braços
Que o pequeno engenheiro enjoou
Eu tinha, lá em casa
Uma tribo com dezenas de caixas de fósforos
Daquelas amarelas
Com a figura de um índio estampado nos rótulos
Vivazes, meus amigos me eram sagrados
E estavam sempre prontos
Para conterem a invasão
Dos soldadinhos amputados
Outros mais me foram dados
Mas minha tribo sempre vencia
Por mais que o pelotão crescesse
Era como se pelo menos ali, naquele dia
O neguinho também vencesse
Eu era pequeno, gigante na minha imaginação
Não creio que o fabricante mais astuto
Pudesse imaginar que seu produto
Fosse além de acender cigarro ou fogão
À noite
Quando minha mãe voltava pra casa
Silenciávamos-nos a todo custo
Para velarmos seu sono tão justo
Depois, cada peça do meu invento
Ia para debaixo do colchão
Ao lado do bloco de cimento
Que sustentava minha cama
A dois palmos do chão
Quando Deus achou que era a hora
Resolveu levar minha santa senhora
Antes que ela pudesse perceber
No que a vida me transformou
Se foi ganância, fraqueza ou necessidade
Não sei
Ninguém nunca me explicou
Amanhã, é dia de visita
Meu filho, a criança mais bonita
Virá me conhecer
Vou rezar até o amanhecer
Para que a vida também não o torne um bandido
Para que seja talvez como minha mãe sonhou
Um profissional bem-sucedido
E se acaso eu perceber
Que ainda existe uma infinita distância
Entre desejo e realidade
Maior terá que ser meu pensamento
Mais forte há de ser minha vontade!”

Estamos lançando hoje, 05/02, mais uma categoria no site da Comunidade do Samba da Vela “Poetas/Poesias”, trata-se de um espaço reservado para todos os poetas e suas respectivas poesias, dedicamos esse espaço para Serginho Poeta, um dos primeiros poetas da Vela, agora é só acompanhar e curtir cada poesia postada aqui.