Archive for the ‘05. Entrevistas’ Category

Como diz Ruy Castro: “A palavra cozinha, no mundo do samba, simboliza o ritmo, a batida, percussão e pulsação. A cozinha é o coração do samba. Mas a cozinha do samba é também um verdadeiro capítulo culinário, um conjunto de receitas e pratos típicos das festas e rodas de bamba, um emblema da nossa querida baixa gastronomia”. E na Comunidade do Samba da Vela não poderia ser diferente, toda segunda-feira, quando a vela apaga e é cantado o último samba, todos são presenteados com a famosa sopa preparada pelo chef Oliveira (José de Oliveira Filho), cozinheiro da comunidade, que é o homenageado e entrevistado pelo Amor ao Samba:

 

Amor ao samba – Oliveira, fale um pouco de você e da sua história na Comunidade.

Oliveira – eu sou um dos fundadores do Samba da Vela, a minha função aqui é com a culinária, mas eu sou cabeleireiro de profissão, desde o inicio, quando a roda foi formada no Bar Ziriguidum, foi decidido que após o samba, todo público presente tinha direito a degustar um prato preparado por mim.

 

Amor ao samba – Conte um pouco da sua família e da sua origem.

Oliveira – sou baiano, nascido em Cruz das Almas, vim para São Paulo com dez anos, já estou aqui há mais de trinta anos, já fui casado e atualmente estou solteiro, tenho três filhas lindas: Ana Carolina, Célia Regina e Naiara, além de dois netinhos, já sou até vovô.

 

Amor ao samba – Qual foi a idéia da sopa na Vela?

Oliveira – no primeiro dia que fizemos a reunião do Samba da Vela, como seria ou como não seria? Eu já trabalhava no Bar Ziriguidum, aí nesse dia, o pessoal presente: Magnu, Maurílio, Paquera, Chapinha e eu também, pediram para eu fazer um mocotó para ser servido após a reunião, mais tarde foi decidido que todo o público também teria direito a refeição.

 

Amor ao samba – O que significa para você esse movimento?

Oliveira – o samba para mim já está na veia, sempre esteve, eu acho um projeto legal porque dá a oportunidade para outras pessoas estarem sendo reconhecidas e isso eu acho muito bom.

 

Amor ao samba – Qual o prato mais solicitado? Aquele que todos pedem para ser servido novamente.

Oliveira – inclusive hoje, devido ao aniversário do Samba da Vela, será um dos pratos que o pessoal mais vai aderir, esse que vou fazer hoje, caldo de peixe galo, com camarão e creme de abóbora japonesa, temperado com alecrim, hortelã, manjericão, coentro e cebolinhas verdes, ao leite de coco e azeite de dendê.

 

Amor ao samba – Qual a homenagem recebida por você que mais marcou aqui na Vela?

Oliveira – para mim é muito importante e gratificante ser homenageado aqui, principalmente por um samba, como o Dú Oliveira e o Chapinha já fizeram para mim, mas isso é fruto plantado com bastante carinho.

 

Amor ao samba – Qual o samba que mais admira?

Oliveira – como eu fico a maioria do tempo dentro da cozinha, fica até difícil eu estar escutando os sambas, tenho que ficar concentrado na cozinha, mas quando acende a vela, eu estou sempre presente quando o primeiro samba é apresentado, cantando e batendo na palma da mão também.

 

Amor ao samba – E o compositor que mais admira?

Oliveira – sem sombra de dúvidas, não só por mim, mas pela grande maioria do público, que já passaram a admirar esse compositor, que é muito conhecido, não só no Samba da Vela, mas em todo o pais: o Chapinha, um grande compositor e meu amigão.

 

Amor ao samba – Qual o seu projeto?

Oliveira – pretendo em breve, até mesmo no final do ano, espero estar terminando meu livro de receitas: “Receitas do Samba da Vela”, do chef Oliveira. Também pretendo montar um restaurante, que será um projeto para ao no que vem.

 

Amor ao samba – Deixa uma mensagem para o sétimo ano da Comunidade.

Oliveira – que todas as pessoas presentes no aniversário do Samba da Vela tenham a consciência que esse nosso sucesso é devido a eles, por terem apostados em nós, agradeço pelo carinho e presença de todos e que essa nossa felicidade é deles também.

Amor ao samba – Como surgiu o apelido Nino Miau?Nino Miau – Nino ganhei de minha mãe assim que nasci e Miau dos amigos desde minha infância. 

Amor ao samba – Você tem filhos? É casado?Nino Miau – Sou solteiro e não tenho filhos, mas uma família maravilhosa que se resume em: minha irmã Nalva, cunhado Geraldo, sobrinhos Bruno e Camila, e a dona do meu mundo: minha mãe Dona Maria do Carmo. 

Amor ao samba – Fale um pouco da sua trajetória na música e na vida.Nino Miau – Nasci no lado leste (Vila Matilde), de família pobre como todos nós da periferia, desde menino me apaixonei por futebol e a música já estava também no meu sangue, meu pai tocava cavaquinho, acordeom e pandeiro. Aos 14 comecei a tocar na noite, tive um paralelo com o futebol chegando até jogar em alguns clubes (Ponte Preta, Palmeiras e Guarú), mas a música cantou mais alto.  

Amor ao samba – Desde quando você está nessa carreira de músico?Nino Miau – Toco na noite desde 1984, comecei com 14 anos. 

Amor ao samba – Quais artistas você já acompanhou como músico?Nino Miau – Ivone Lara, Clementina de Jesus, Monarco, Almir Guinéto, Capri, Argemiro da Portela, Dicró, Oswaldinho da Cuíca e tantos outros. 

Amor ao samba – Quais os seus projetos?Nino Miau – Quero fazer uma escola de música pra crianças que não tem oportunidade de estudar e muito mais. Amor ao samba – Qual o interprete que mais admira?Nino Miau – Paulinho da Viola e Ivone Lara. Amor ao samba – Qual o compositor que mais admira?Nino Miau – Muitos, mas curto Cartola, Ivone Lara, Paulinho da Viola e Elton Medeiros. 

Amor ao samba – Qual o músico que mais admira?Nino Miau – Hamilton de Holanda, Zé Menezes, Arlindo Cruz e Luizinho Sete Cordas. Amor ao samba – O que representa para você a Comunidade Samba da Vela?Nino Miau – Ali fui recebido com muito carinho por todos, sempre dei minha parcela de contribuição ao samba sem querer nada em troca, apenas o prazer de ver o povo cantar meu samba, portanto é minha casa, é onde eu me sinto pronto pra criar, é meu estado de espírito. 

Amor ao samba – Como surgiu a idéia do Pagode do Cafofo?Nino Miau – Na intenção de ajudar um amigo, o Wagner me convidou pra fazer um samba lá no bar pra chamar gente pro local, junto com outros amigos começamos a fazer um samba sem pretensão de nada, mas como tudo que é bom acontece, o Cafofo tomou essa proporção. 

Amor ao samba – Como você vê a mídia mascarando muitos artistas de boa qualidade e valorizando as “modinhas”?Nino Miau – Acho que todos nós temos que trabalhar, a grande mídia faz o trabalho que ela acha que dá resultado, eu não acredito nisso, sei que o samba é uma arte de inclusão social e talvez todo esse modismo seja reflexo de um país abandonado pelos seus comandantes. 

Amor ao samba – Qual o grupo da atualidade que mais admira?Nino Miau – Meu grupo e sem proteção, é sem sombra de dúvidas: Quinteto em Branco e Preto, pela qualidade musical, simplicidade e como pessoa, cada um deles. Amor ao samba – Qual o músico jovem que mais admira?Nino Miau – Everson Pessoa e Maurílio de Oliveira (Quinteto em Branco e Preto). 

Amor ao samba – Qual sua música preferida?Nino Miau – Tenho muitas músicas que gosto, Andanças, As Rosas Não Falam, Caminho de Lua Cheia e A Luz (Paquera). 

Amor ao samba – Qual a sua composição preferida?Nino Miau – Todas elas são meus filhos, tenho que gostar de todas, mas estou sempre em busca da próxima. 

Amor ao samba – Para finalizar, o que o samba representa para você?Nino Miau – O samba representa para mim uma oração universal, meu momento de reflexão, minha vida, meus sucessos e fracassos, penso no samba como um meio de inclusão social, o samba é a nossa identidade cultural.

Amor ao samba – Desde quando freqüenta a Vela?

Vó Suzana – “Quase cinco anos.”

Amor ao samba – Como surgiu a idéia de compor?

Vó Suzana – “Desde criança sempre cantei, participei dos corais da igreja e da escola, meu irmão era músico e sempre cantávamos em casa, aí eu fazia algumas coisas, algumas brincadeiras, mas nunca mostrei pra ninguém, no momento que eu passei a freqüentar a Vela, aí eu comecei a fazer e mostrar para os nossos colegas aqui.”

Amor ao samba – O que significa para a senhora o movimento do Samba da Vela?

Vó Suzana – “Eu acho um movimento cultural muito bom, faz com que a gente tenha contato com muitos jovens que se interessam pela música e que passam a se dedicar a ela, deixando outros procedimentos de lado, o que eu acho muito importante.”

Amor ao samba – Como surge a inspiração para compor?

Vó Suzana – “Olha! A inspiração de compor é uma coisa assim que chega de repente, vem da alma e do coração, então a gente não sabe nem explicar e como dizer.”

Amor ao samba – Para a senhora, qual o samba que marca esse movimento?

Vó Suzana – “O samba Irmãos de Fé, composto por Magnu, Maurílio, Chapinha e Paquera (os quatro fundadores), eu acho muito bonito e também Vida, composto por Magnu e Maurílio.”

Amor ao samba – E o samba feito e apresentado pela senhora que sentiu o melhor resultado?

Vó Suzana – “Dos sambas todos que eu fiz o que mais teve repercussão e o que mais apareceu foi uma homenagem que fiz pra Vela, que se chama “Pra vela não se apagar”, inclusive estará no próximo CD do Quinteto em Branco e Preto e está no CD da Comunidade do Samba da Vela, mas o samba que eu fiz e mais gosto, chama-se Saudade.”

Amor ao samba – E o compositor que a senhora mais admira no Samba da Vela?

Vó Suzana – “Aqui, eu gosto muito do Chapinha, até pela alegria do Chapinha, eu acho o Paquera também um compositor excelente, aliás, os quatro meninos são ótimos, o Magnu e o Maurílio…”

Amor ao samba – Qual interprete do samba que a senhora gostaria que gravasse uma música sua?

Vó Suzana – “Têm vários, porque assim, os sambas são diferentes, então tem alguns sambas que eu imagino… Pô, se a Beth Carvalho gravasse esse samba! Em compensação eu tenho um samba, que eu penso assim: se eu tivesse a oportunidade de mostrar para o Dicró! E tem um compositor que vem aqui no Samba da Vela, chamado Toinho, que ele canta esse meu samba “Saudade” de uma forma que até me emociona.”

Amor ao samba – Qual a maior surpresa ou emoção que o Samba da Vela já te proporcionou?

Vó Suzana – “Foi quando colocaram o meu primeiro samba, “Pra vela não se apagar”, no caderno. Aquilo me emocionou muito.”

Amor ao samba – Vó, por favor, deixa uma mensagem para os sete anos da Comunidade do Samba da Vela.

Vó Suzana – “Então, a comunidade está já há sete anos, se reunindo, eu cheguei depois, faço parte dos Guardiões da Vela (a velha guarda da comunidade), e a mensagem que eu deixo é que as pessoas procurem continuar com esse movimento, continue com esse trabalho e também trazendo bastante jovens, para que eles participem desse nosso encontro, que é basicamente cultural, nossa bandeira maior é o samba, mas a gente se preocupa com a cultura em todos os níveis.”