Archive for Fevereiro, 2008

Toinho agitou a comunidade nessa última segunda-feira (18/02), cantando Dávida, música integrante do 1º caderno de 2008, em parceria com Cacá Barbosa e Augusto César, com direito a coreografia e tudo mais. Assistam ao vídeo, é só clicar em “VIDEO MPG”

Toinho agitou a comunidade - Clique aqui

Este texto foi extraido do blog de Nei Lopes – por Rui Quaresma – Leiam com Atenção!

Tempos atrás, listávamos e publicávamos tudo aquilo que achamos que o samba precisa para ser visto e respeitado como a grande arte que é. O texto foi tão bem recebido que a então deputada Jandira Feghali o fez constar dos anais do Congresso Nacional, na seção realizada em Brasília no Dia Nacional do Samba.Agora, alguém, que suponho um jovem bem intencionado, vem até nós, a pretexto de uma homenagem, como tem ocorrido com freqüência, solicitar nossa presença e nosso samba em outro Estado, sem nos oferecer nenhum tipo de contrapartida a não ser a honra das “flores em vida”, que embora muito nos envaideçam, às vezes acabam se tornando um presente de grego.

É então que, zeloso, delicado e profissional como sempre, o produtor e amigo Ruy Quaresma, através de sua Fina Flor Produções, adianta-se e escreve ao propositor da sincera homenagem, dizendo entre outras coisas o seguinte:

“Diferente do que você imagina – escreveu Quaresma – o samba só passa a ser respeitado quando tenta se nivelar economicamente aos outros segmentos do mercado musical, exigindo o mesmo tratamento e até mordomias, se houver. Não precisamos exigir 80 toalhas negras, como fazem os roqueiros que vêm aqui, mas podemos e devemos exigir condições mínimas, como bilhetes aéreos (sambista já andou muito de carona, kombi e ônibus), hospedagem em hotel decente, alimentação adequada, um camarim confortável, etc. Fazemos isso há, pelo menos, 30 anos, e ainda tem gente (produtores) que se espanta, porque está acostumada a tratar sambista como um bando de batuqueiros que fazem qualquer coisa por um espeto de churrasco com farofa, umas cervejas, uma cachacinha e, quem sabe, até um trocozinho pra fazer uma graça com a D. Maria. Sabemos que o samba é a grande matriz da música brasileira, sabemos da importância disso tudo. Mas se os sambistas continuarem a participar gratuitamente de rodas de samba, comparecer aos salões da “sociedade” em troca de um jantar e uma merreca, fazer participações em eventos de “jovens”, em troca de um cachezinho de ajuda de custo, vão continuar eternamente à margem, mendigando e reclamando da vida, que o samba não tem vez etc etc.

“Temos que agir profissionalmente SIM. – prossegue Ruy. Na nossa gravadora FINA FLOR, sambistas gravam discos decentes, com músicos de verdade, com naipe de sopros, orquestra de cordas, etc e são respeitados e regiamente pagos, como qualquer outro artista da chamada MPB. Na produtora FINA FLOR, procuramos, cobrando cachês decentes e estabelecendo condições mínimas de trabalho, dar dignidade a artistas como Nei Lopes, Walter Alfaiate, Surica, Monarco, Tantinho da Mangueira, Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila, Noca e muitos outros. O samba, como cultura, está acima, muito acima de todos nós; já está devidamente eternizado e é imortal, não correndo o risco de morrer, como você teme, nem de agonizar como, equivocadamente, imaginou nosso querido Nelson Sargento”.

E arremata Ruy Quaresma: “Nei Lopes mora a 80km do Rio, num município onde faz suas pesquisas, escreve seus livros, compõe suas músicas, enfim, trabalha diariamente, só vindo ao Rio para gravar alguma coisa, fazer algum show ou pegar um avião pra viajar. Mesmo sendo um escritor respeitado e um cantor-compositor de reconhecidos sucessos, ele ainda não pode se dar ao luxo de, por conta própria, se deslocar, seja para onde for, para participar de qualquer evento, homenagens etc, que não tenham cunho profissional.”

É isso…

Confira a poesia “Soldados de Chumbro”, de Serginho Poeta, uma das primeiras poesias apresentadas no Samba da Vela, em 2000/2001, ainda quando a roda de samba era no bar Ziriguidum, abaixo a letra e o áudio (gravado ao vivo no dia 06/08/07):

Soldados de Chumbo - Serginho Poeta - Clique aqui

Soldados de Chumbo
(Serginho Poeta)

“Quando apagam a luz
Da última cela do meu pavilhão
Um clarão vem iluminar a minha janela
É a lua
Não sei o que seria de mim se não fosse ela
O sentinela caminha de um lado para outro
Acende um cigarro…
Um carro passa por trás da muralha
Não posso vê-lo, apenas ouvi-lo
Não posso tocá-lo, mas posso senti-lo
É engraçado
Não fosse pelo andar desengonçado
Pela deselegância
Diria que o homem fardado
Se parece com alguns soldados de chumbo
Que ganhei na minha infância
Minha mãe trabalhava
Por quanto tempo durasse o dia
E acaso, não fosse o bastante
Seu esforço tinha a noite como companhia
Às vezes, me levava para o emprego
E eu ficava confinado à área de serviço
Talvez porque a patroa não gostasse de negros
Circulando pelos cômodos do seu luxuoso cortiço
Quando acordava de bom humor
Danava-se a falar do moleque sem cor
Que queria que fosse engenheiro
Sei que minha mãe sonhava pra mim
Um futuro semelhante
Mas quando olhava pro neguinho
Com ar de maloqueiro
Arriava o semblante e sofria
Como quem descobre uma infinita distância
Entre desejo e realidade
Certo dia
A madame me deu de esmola
A Guarda Real Britânica
Em formato de miniaturas
Criaturas sem pernas ou braços
Que o pequeno engenheiro enjoou
Eu tinha, lá em casa
Uma tribo com dezenas de caixas de fósforos
Daquelas amarelas
Com a figura de um índio estampado nos rótulos
Vivazes, meus amigos me eram sagrados
E estavam sempre prontos
Para conterem a invasão
Dos soldadinhos amputados
Outros mais me foram dados
Mas minha tribo sempre vencia
Por mais que o pelotão crescesse
Era como se pelo menos ali, naquele dia
O neguinho também vencesse
Eu era pequeno, gigante na minha imaginação
Não creio que o fabricante mais astuto
Pudesse imaginar que seu produto
Fosse além de acender cigarro ou fogão
À noite
Quando minha mãe voltava pra casa
Silenciávamos-nos a todo custo
Para velarmos seu sono tão justo
Depois, cada peça do meu invento
Ia para debaixo do colchão
Ao lado do bloco de cimento
Que sustentava minha cama
A dois palmos do chão
Quando Deus achou que era a hora
Resolveu levar minha santa senhora
Antes que ela pudesse perceber
No que a vida me transformou
Se foi ganância, fraqueza ou necessidade
Não sei
Ninguém nunca me explicou
Amanhã, é dia de visita
Meu filho, a criança mais bonita
Virá me conhecer
Vou rezar até o amanhecer
Para que a vida também não o torne um bandido
Para que seja talvez como minha mãe sonhou
Um profissional bem-sucedido
E se acaso eu perceber
Que ainda existe uma infinita distância
Entre desejo e realidade
Maior terá que ser meu pensamento
Mais forte há de ser minha vontade!”

Estamos lançando hoje, 05/02, mais uma categoria no site da Comunidade do Samba da Vela “Poetas/Poesias”, trata-se de um espaço reservado para todos os poetas e suas respectivas poesias, dedicamos esse espaço para Serginho Poeta, um dos primeiros poetas da Vela, agora é só acompanhar e curtir cada poesia postada aqui.